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19 de out de 2011

As funções visuais e o desenvolvimento infantil

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Patrícia Ferreira Bezerra

1. INTRODUÇÃO
As funções visuais estão intimamente relacionadas ao desenvolvimento infantil global e constituem-se numa evidência do funcionamento neurológico adequado. Acredita-se que a maior parte das aquisições motoras, intelectuais e de personalidade são favorecidas, em maior ou menor intensidade, pela entrada sensorial, especialmente a visual (4, 11).
Os seres humanos apresentam diversas habilidades relacionadas ao processo de percepção visual, as quais começam a desenvolver-se ainda no período embrionário e tendem a aprimorar-se ao longo da vida extra-uterina (5, 9). BEE (1996) cita como primordiais as habilidades visuais básicas, que são aquelas relacionadas aos mecanismos através dos quais a criança percebe, e as habilidades perceptuais complexas, referentes a o que ela apreende a partir da utilização desses mecanismos.
Sabe-se que o comportamento infantil desenvolve-se a partir de uma concepção céfalo-caudal e próximo-distal, sendo que o desenvolvimento ocular no período intra-uterino ocorre logo após o desenvolvimento dos lábios e da língua, e anteriormente ao do pescoço, ombros, braços, mãos e dedos, tronco e membros inferiores (5, 8).
Assim a visão continua seu processo de desenvolvimento e maturação após o nascimento, tornando a criança gradualmente capaz de fixar e acomodar visualmente objetos, realizar movimentos de convergência e acompanhamento visual, aprimorar a acuidade, atenção, visão em cores, localizar objetos e ampliar seu campo visual, diferenciando figura e fundo, percebendo as relações espaciais estabelecidas e integrando aferências visuais, auditivas, táteis e cinestésicas, partir das quais estabelecerá relações com o meio externo e interno (2).
Para GESELL (2000) a percepção visual está profundamente integrada a todos os sistemas infantis, influenciando na postura, aquisição de habilidades motoras, cognição e personalidade da criança. O autor considera também que o sinergismo entre as ações globais da criança é fundamental para o seu desenvolvimento harmônico.
Desta forma, acredita-se que, ao nascer, para a criança, corpo e meio ambiente são estruturas indissociáveis, e que, diante das reações aos estímulos externos, inicia-se o processo de construção das noções de objeto, que dependerá da assimilação (incorporação do objeto aos esquemas da criança) e acomodação (adaptação dos esquemas para que haja assimilação de novas informações) (6).
No segundo estágio do período sensório-motor (entre 6-8 semanas e 3-6 meses) os estímulos, já integrados neurologicamente em algumas áreas, permitem ao bebê associações comportamentais como olhar a mamadeira e abrir a boca, e o seguimento de brinquedos que balançam em seu campo visual. Verifica-se uma simetria postural, favorecendo a formação de esquemas manuais, onde a criança passa a coordenar o olhar para as mãos, objetos e pessoas, com interesse crescente. A integração entre visão e audição é observada, sendo que, diante de estímulos auditivos (como a voz materna), a criança vira a cabeça em busca da fonte sonora. Aos seis meses de idade, o olhar já se dirige diretamente a essa fonte, demonstrando integração desses processos (8, 12, 13).
A partir do segundo ano de vida, a percepção visual permite à criança comparar visualmente e encaixar formas simples. Olha e esconde gravuras que lhe agradam, fixa os olhos em pequenos objetos à sua frente com boa percepção espacial. Diz o nome de figuras desenhadas com contornos simples sem cores e identifica objetos familiares com facilidade. Através do desenho pode-se analisar o espaço gráfico, onde, até antes dos dois anos, observa-se somente rabiscos, sendo que aos dois anos e meio a criança já começa a diferenciar formas abertas de formas fechadas (12, 13). Os desenhos indicam relações topográficas e a criança percebe círculos interiores e exteriores, mas ainda não diferencia curvas e retas (somente a partir dos 4 anos (12).
Aos 3 anos a criança copia um círculo e uma linha vertical. Ao copiar imagens vistas tem início o processo construtivo das funções visuais, onde a criança discrimina e compara formas e contornos (12).
Aos 3 anos e meio ou 4 anos a criança começa a ter sucesso ao copiar figuras topológicas que indicam proximidade, separação, envolvimento, ordem e continuidade, entretanto as relações euclidianas ainda estão ausentes. Aos 4 anos a criança deve ser capaz de enumerar figuras e interpretá-las (12).
Nesta idade, a criança percebe figuras representativas e é capaz de analisá-las e sintetizá-las, explicando o que significam, estabelecendo relações entre seus diversos objetos constituintes, iniciando também a diferenciação de figuras geométricas (quadrado e retângulo, e círculo e elipse) (12).
Aos 5 anos a criança é capaz de reconhecer e nomear as cores básicas (vermelho, amarelo, verde e azul), assim como texturas (duro, mole, áspero, macio). Seu vocabulário aumenta conforme a qualidade de suas experiências (8). Esta é a fase de preparação para a alfabetização, onde LEFÉVRÈ (1990, p. 127) afirma:
A investigação da organização visual relacionada com objetos e figuras adquire uma grande importância, pois as formas se transformarão em letras numa sequência espacial, variando as dimensões e cores apresentadas. Tanto a leitura como a escrita vão exigir um processo visual construtivo que se transforma nessa época. A base cerebral da sensação e percepção visual são as zonas occipitais do córtex.
Assim, o aprendizado da leitura requer inicialmente a habilidade de distinguir figuras simples, o reconhecimento de formas (discriminações grosseiras) e respostas diferenciadas relacionadas à análise de formas (propriedades angulares e orientação espacial). Assim, a criança terá condições de distinguir as consoantes "b", "p", "d" e "g", "n" e "z", e "w" e "m", diferenciando-as conforme sua percepção e orientação no campo visual (12).
A partir dos 5-6 anos, com o amadurecimento parietal e occipital, a percepção das formas vai tornando-se mais precisa, momento em que o esquema corporal e a escrita se definem, e as letras tomam suas posições corretas (não mais em espelho, com troca ou omissão de letras). Há também definição de direita e esquerda, assim como se aprimora a percepção espacial. Caso uma criança cometa inversões ou distorções após os 7 anos de idade, pode ser um indicativo de distúrbios na integração visomotora (12).
2. MÉTODO
A fim de facilitar a compreensão acerca da importância da visão para o desenvolvimento humano e as contribuições das aferências visuais para a aquisição de conceitos, buscou-se pesquisar em referências bibliográficas fundamentadas cientificamente aspectos que permitissem realizar algumas considerações sobre os principais comportamentos visuais infantis e suas repercussões no desenvolvimento psicomotor da criança.
Este trabalho baseia-se nos períodos de desenvolvimento propostos por PIAGET, citados por diversos autores, realçando as aquisições visuais de cada etapa e suas conseqüências ao aprendizado global da criança, sendo a divisão do comportamento infantil em faixas etárias realizada devido a necessidade de facilitar seu entendimento, uma vez que não existem padrões absolutos e sim padrões de referência, especialmente em se tratando de crianças com necessidades especiais (3, 7).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Pode-se observar diante da pesquisa realizada que a visão representa um importante sistema sensorial junto ao aprendizado de habilidades, constituindo-se num meio facilitador para entrada de informações e aquisição de experiências em prol do aprendizado infantil, devendo-se portanto conhecer e estimular as funções visuais e perceptivas de forma precoce e adequada, especialmente no caso de crianças portadoras de necessidades especiais que apresentem condições orgânicas que limitem ou impeçam a exploração do ambiente por outros meios sensoriais, uma vez que o aprendizado perceptivo visual é uma função auto-reforçadora onde, a partir das experiências adquiridas, a criança motiva-se na busca por novas vivências perceptivas em prol de seu desenvolvimento neuropsicomotor (10).
Pode-se constatar, desta forma, que a visão influencia direta e indiretamente na aquisição de diversas habilidades psicomotoras, como no aprendizado da linguagem, movimentação automática e espontânea, imagem e esquema corporal, motivação, segurança, auto-estima, objetividade auditiva (localização e sentido de distância), entre outros (2).
Sabe-se também que as percepções visuais repercutem no desenvolvimento emocional da criança, tornando-a, conforme a significância de suas experiências, mais ativa, independente, auto-confiante, e posicionando-a adequadamente diante do espaço percebido. É a percepção do ambiente que faz com que a criança reaja emocionalmente, como no contato ocular entre a mãe e o bebê, que deve lhe transmitir segurança física e emocional (6).
Assim, a utilização adequada das funções visuais pode ser extremamente benéfica no intuito de auxiliar o educador a introduzir conteúdos que motivem a criança para o aprendizado dos conceitos propostos, necessitando o profissional conhecê-las e saber intervir adequadamente junto ao sistema sensorial visual a partir do reconhecimento da etapa de desenvolvimento em que a criança se encontra.
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. BEE, H. A Criança em Desenvolvimento. 7 ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. 550p.

2. BEZERRA, P. F. As Funções Visuais e o Estrabismo nas Encefalopatias Crônicas não Evolutivas Infantis: propostas para avaliação terapêutica ocupacional em crianças de 0 a 6 anos. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso) - Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade do estado do Pará, Belém, 2001. 203p.
3. CANÍGLIA, M. Modelos Teóricos Utilizados na Prática de Terapia Ocupacional. Belo Horizonte: Expressa, 1993. 96p.
4. COELHO, M. S. Avaliação Neurológica Infantil nas Ações Primárias de Saúde. São Paulo: Atheneu, 1999. 228p.
5. DANTAS, A. M. Oftalmologia Pediátrica. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1995. 871p.
6. FARIA, A. R. O Desenvolvimento da Criança e do Adolescente Segundo Piaget. 3 ed. São Paulo: Ática, 1995. 114p.
7. FINGER, J. A. O. Terapia Ocupacional. São Paulo: Sarvier, 1986. 262p.
8. GESELL, A. A Criança do 0 aos 5 Anos. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 392p.
9. GESELL, A. Gesell e Amatruda Diagnóstico do Desenvolvimento: avaliação e tratamento do desenvolvimento neuropsicológico no lactente e na criança pequena, o normal e o patológico. São Paulo: Atheneu, 2000. 566p.
10. GRIEVE, J. Neuropsicología para Terapeutas Ocupacionais: evoluación de la percepción y cognoción. Bogotá: Médica Panamericana, 1995. 155p.
11. HYVARINEN, L. O Desenvolvimento Normal e Anormal da Visão. São Paulo: 1986. 60p.
12. LEFÉVRÈ. Neurologia Infantil. 2 ed. Rio de Janeiro, São Paulo: Atheneu, 1990. 876p.
13. PFEIFER, L. I. Comprometimento Motor e Habilidades Cognitivas em Crianças com Seqüelas de Paralisia Cerebral. 1994. 164 f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, UFSCar, São Carlos, 1994. 

FONTE: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=18717

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"Muitas mudanças ocorreram nos últimos vinte anos, quando teve início a prática da Baixa Visão em nosso país. O oftalmologista brasileiro, porém, ainda não se conscientizou da responsabilidade que lhe cabe ao determinar se o paciente deve ou não receber um tratamento específico nessa área. Infelizmente, a grande maioria dos pacientes atendidos e tratados permanece sem orientação, convivendo, por muitos anos com uma condição de cegueira desnecessária." (VEITZMAN, 2000, p.3)

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FONTES PARA PESQUISA

  • A VIDA DO BEBÊ - DR. RINALDO DE LAMARE
  • COLEÇÃO DE MANUAIS BÁSICOS CBO - CONSELHO BRASILEIRO DE OFTALMOLOGIA
  • DIDÁTICA: UMA HISTÓRIA REFLEXIVA -PROFª ANGÉLICA RUSSO
  • EDUCAÇÃO INFANTIL: Estratégias o Orientação Pedagógica para Educação de Crianças com Necessidades Educativas Visuais - MARILDA M. G. BRUNO
  • REVISTA BENJAMIN CONSTANT - INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT